4/2/09
É só um fuzil de verdade!
Uma foto estampada em um jornal de hoje, tirou meu sossego construido tão cuidadosamente. E por mais que meus cinco sentidos só queiram ser atraídos por sentimentos e sensações boas, dessa vez não deu para fugir ou fazer de conta. A foto era manchete grande e a cores. Mostrava moradores da favela Paraisópolis um dia após o confronto, andando por uma de suas ruas na mais completa rotina: um homem carregava sua sacola de compras, de onde se via uma caixa de sabão em pó; duas mulheres caminhavam juntas e uma delas segurava a mão de uma menininha de uns dois anos. Ao lado da menina um provável irmão, garotinho de no máximo quatro anos. E no meio do caminho… não havia uma pedra como poderia dizer Drumond, havia um Policial Militar naquela estreita calçada, encostado à parede e segurando aquele fuzil odioso, símbolo de ordem e de morte. Não estão em posição de descanso, o PM e o seu fuzil! Mãos engatilhadas, olhar atento e como que apontando para a cabeça do menino. A proximidade é tanta que me causou arrepios.
E todos esses transeuntes simplesmente ignoram o policial e sua arma letal. O garotinho então, no ângulo mostrado pela foto, não tem saída espremido entre a parede e uma árvore naquela exígua calçada.
Como em um filme, espero a sequência das fotos que não são mostradas. Foi apenas um flash que mexeu comigo e me fez pensar em muitas coisas: em crianças de antigamente que só conheciam os bandidos nos filmes de mocinho e bandido e que hoje são todos personagens reais, ou meros figurantes de balas perdidas, de um lado ou de outro, para o bem ou para o mal.
E o que mais me entristeceu foi a sensação de ver no rosto daquelas duas crianças e de sua mãe, a indiferença que o sofrimento enfim causa. São humanos que eu sei. Tem dores, amores e sonhos. Mas são obrigados a vestir diuturnamente a armadura de proteção que não permite mais espantos ou medos. É viver ou morrer.
Será que escolheram viver assim? Será que não tem outra saída? Como será não poder fechar a porta de sua casa e dizer enfim: "lar doce lar", enfim segura e sob a proteção do meu teto, do meu santuário!"
Sinto-me privilegiada e triste, muito triste mesmo.
criado por eliezeteluna
15:56:44 — Arquivado em: 

