Posso entender seu cansaço, de lutas travadas ao longo dos séculos, trazendo na pele as vestes de todas Amélias, que viraram Giseles, Dorinas, Terezas de Calcutá, aeronautas, princesas, ministras, poetas, filhas, avós, empresárias, Terezas Batista Cansadas de Guerra, atrizes, amantes, mãe, mulher.
Posso sentir sua estranheza, perplexidade e até desconforto, incorporando e assumindo tantos papéis e tantas peles em vários matizes.
Mas hoje é dia de desarmamento!
Desmanche esse nó no cabelo, solte o coque e desça do salto. Deixe no armário seu terninho de mil grifes e vista seu jeans mais folgado e escrachado. Pé no chão e cabeça nas nuvens.
Só hoje, faça poesia com você!
Tire a maquiagem e desmanche essa imagem. Desenrugue a testa e faça sua festa. A máscara de brava você usa na segunda-feira, quando sua paciência estiver na beira.
Hoje é seu dia, desanuvia!
Hoje não tem criança, não tem escola e nem pediatra. Hoje não tem terapia. Só alquimia. Hoje o trânsito não vai ficar nervoso. Dará tempo pra tudo, até para os absurdos.
A reunião do Condomínio não é mais do seu domínio. As contas a pagar você congela no freezer. Seus sonhos e planos, põe ali, debaixo daquele girassol, perto da janela.
Hoje não tem patrão, reunião ou decisão. Hoje não é sua missão.
Desligue seu celular e o seu computador. Saia puxando todos os fios das tomadas. Desconecte-se. Só hoje.
Aquele plano de carreira, que dá tanta trabalheira, deixe guardado para a próxima quinta-feira, bem além daquela soleira.
Hoje não decida, não cuide, não interfira. Nada de intermediação, de alta combustão.
Procure um riacho manso e deite-se ali: quieta, linda e livre!
Hoje o mundo não te chamará para a luta. Que ele passe sem você, pobre sexo frágil tão forte!
Será que o mundo aguenta? Só um dia sem a sua interferência?
É a empregada que faltou; o carro que enguiçou; a TPM que adiantou. É buscar superação em reunião com homens de ação, tendo que mostrar quem você é, só porque é mulher…
É contratar um pedreiro e ter de cantar de galo, só para mostrar quem é que manda no poleiro. É se entender com o mecânico, que ainda acredita que sua cabeça é uma pequena ventuinha.
É discutir a relação! E ainda explicar para a filha o que é menstruação. É ensinar coisinhas básicas para o filho, para que ele reproduza um mundo com mais emoção. Não vivemos só de tesão.
Faça valer seus direitos!
Esqueça a boa conduta e corra nua pela rua. Ria alto, dê gargalhadas e cambalhotas. Faça pactos só pra se divertir, já que sabe que não vai cumprir. Pule um muro, buzine e faça barulho.
Esqueça o padrão de beleza e se lambuze na mesa. Pra variar, se descomponha e enlouqueça. Não pense no cardápio e nem se preocupe com os larápios. Gaste sua energia e todas as suas economias.
As "muito" feministas que me perdoem, mas eu quero folga hoje. Careço de um abraço dengoso, daquele homem gostoso. Preciso de colo, de mimo, e se puder de um arrimo.
Faça amor. Seja o amor. Se embebede de amar sem pensar.
Hoje o dia é nosso! Quem sabe no futuro, tenhamos coragem para só ser o que queremos, todos os dias.
Minha homenagem a você, mulher camaleoa!
Eliezete de Luna Freire
(Eliezete é autora do livro: www.odeiocomputadores.com.br, lançado no Dia Internacional da Mulher em março de 2007, ocasião em que escreveu este texto).
Se você gostou, envie-o para uma amiga tão especial quanto você. Ou para um homem que você queira fazer entender o que somos, ou por que somos.