Não sei quem é Maria Luíza. De verdade não. Passei por ela no domingo por volta das oito da manhã quando todos ainda dormiam.
Eu fazia minha caminhada matinal, feliz com aquela manhã ensolarada e me dirigia para uma enorme praça onde a natureza se encarrega de me recarregar.
Ao entrar em uma rua tranquila, cheia de casas e prédios de alto padrão, vejo uma cena que destoa do ambiente. Deitada na calçada de uma casa, vejo uma menina-moça que deveria ter no máximo dezesseis anos. De longe achei a cena inusitada demais e a posição do seu corpo parecia de alguém relaxado tomando banho de sol. Bonita, bem vestida no uniforme de adolescente: blusinha branca, calça jeans, algumas bijouterias de bom gosto e com o celular em cima da barriga. Os braços abertos em cruz.
Mas o que mais me chamou a atenção e o que me fez voltar logo após haver passado vagarosamente por ela, foi uma espécie de bota ortopédica até o joelho da perna direita, que estava flexionada. Era preta e cheia de fivelas. Fiquei sabendo depois que era por causa de uma tendinite no pé.
Sou obrigada a confessar que infelizmente nosso senso de amor ao próximo (falo do meu aqui) nem sempre é automático e despreendido. É uma pena. Temos medos, receios, somos egoístas. Não queremos ser tirados da nossa rotina. O fato é que me coloquei no lugar dela, ou imaginei que pudesse ser minha filha. O importante é que voltei imaginando que ela não estivesse em condições de se levantar por causa da perna.
Quando me aproximei e disse olá, ela abriu os olhos mas não disse nada. Só me olhava com aqueles olhos extremamente vermelhos e inexpressivos.
_ Você precisa de ajuda? Posso te ajudar em alguma coisa?
_ Tô de boa, meu, verdade! (Traduzindo, ela não precisava de mim, estava tudo bem).
Senti um enorme aperto no coração ao ouvir aquela voz que saía lenta e enrolada. Não tive dúvidas mais quanto à sua imobilidade.
_ Você estava na balada?
_ Sei lá. Nem sei se aquilo era uma balada. Ninguém gostou de mim. Acho que era por causa dessa bota, ou porque acharam que sou muito doida.
Maria Luíza, linda e perdida não queria minha ajuda e muito menos conversar. Quando eu me sentei na calçada e perguntei onde morava e como poderia ajudá-la, pegou seu celular e me disse:
_ Eu tenho tudo, meu! Celular, dinheiro e vou telefonar pra minha mãe vir me buscar. Obrigada, meu! Quando você voltar eu não vou estar mais aqui. Tô de boa!
Desejei boa sorte e continuei minha caminhada, não mais feliz com a manhã ensolarada. Maria Luíza não me saiu mais da cabeça. Quando voltei ela realmente não estava mais lá. Pensei na mãe dela sendo acordada com o telefonema da filha e senti dó das duas. Imagino que não tenha sido a primeira vez que Maria Luíza apronta das suas.
Pensei principalmente na auto-estima dessa menina. Tão baixa que se nivelava à sua tendinite. E mais triste é que ela teria trocado tudo de bom que ela ainda pode vir a ser, por um beijo na boca ou um acordo qualquer naquela balada perdida, caso algum dos meninos a tivesse escolhido.
Deus a proteja Maria Luíza. Tomara que você se encontre, se veja e se ame. Só assim você estará de boa!